domingo, 8 de junho de 2008

Da Vergonha


Vergonha é um sentimento engraçado. É um sentimento? Definir de que jeito? Pra mim e para toda a população do planeta é completamente familiar, mas a definição que podemos dar à vergonha é relativa. O que causa vergonha em alguns pode ser motivo de orgulho para outros. A vergonha dos velhos é diferente da das crianças. A dos homens, diferente da das mulheres. A das mulheres, diferente para cada idade, cada fase. E para cada mulher cabe a sua cota particular de vergonhas inexplicáveis e totalmente personalizadas. Vergonhas com grife própria.
Há as que não usam calças jeans por vergonha da bunda. As que não dançam em festas por vergonha de parecer garças desajeitadas tentando sair da lama. As que nunca, jamais, em hipótese alguma deixam que as vejam desmazeladas. Outras não têm o menor problema com isso, desde que estejam com um risco de lápis preto nos olhos e calcinhas limpas. São tantas, tão diversas, tão infinitas, tão íntimas e tão sutis as tais vergonhas que seria impossível falar de todas. Talvez até das minhas próprias. Quanto tempo levaria para enumerar minhas vergonhas? Não me refiro somente às físicas, aquelas que estão no corpo, que podem ser ou não reais. Me preocupam e intrigam mais aquelas outras, que nos corroem por dentro, como se o cérebro fosse invadido de vez em quando por uma dose generosa e corrosiva de ácido de bateria.
O mais insólito, na verdade, é o modo prosaico que me levou a pensar no tema. Comecei minha reflexão sobre as diversas vergonhas estendendo roupas no varal. Por um caminho intrincado que não saberia descrever em detalhes (o labirinto, o Minotauro, as migalhas de pão de João e Maria, Penélope que desmancha durante a noite o bordado que faz de dia...) cheguei à conclusão de que algumas mulheres não têm o menor pudor em chupar o pau de um estranho, mas morrem de vergonha de pendurar no varal panos de pratos surrados e velhos.
É uma lógica estranha, mas faz sentido. Afinal, não há orgulho nenhum em exibir, como bandeiras desfraldadas ao vento para todos os que quiserem admirar, o testemunho das pequenas misérias diárias dos trabalhos domésticos a que se submetem as donas daqueles trapos, que saem maravilhosas e poderosas, cabelo impecável, saltos, maquiagem, trabalham fora, conquistam o mundo, mas que revelam a mortalidade simples de lavar a louça e limpar o fogão. É um sentimento ancestral de vergonha que eu reconheço, compactuo e compartilho. Amanhã vou sair, linda e arrumada, para comprar novos panos de pratos.

6 comentários:

Rodrigo Souza disse...

Vergonha também é um troço regulável conforme o estado emotivo. Feliz aquele que consegue despertar em uma mulher, ainda que tenra e pudica, uma paixão tal que transformam-nas em libertinas depravadas, dignas protagonistas de contos de Marquês de Sade. Tão mudadas e poderosas que conseguem com um só olhar ou essência, fazer cair por terra os tabus masculinos mais arraigados.

[solilóquio camiphili] disse...

li, alguns dias atrás, seu conto lá no beco. hoje cheguei despretenciosamente aqui no seu blog. acreditava que depois de lê-lo eu fecharia a janela do explorer sem deixar qualquer vestígio da visita. não consegui. deu vontade de contar que, também despretenciosamente, você me espantou. talvez lembre-se de como nos envolvemos, você mais ativamente que eu, numa tumultuada discusão no blog pequenagrande. discusão que a mim não empolgou, ao contrário, fiquei apática a previsibilidade das nossas reações humanas. errei em te dar uma cara e um conteúdo pelo que observei unicamente naquela ocasião. hoje me espantei, porque talvez só hoje olhei pra uma denise que é a denise, tão além do tão pouco que criei como sendo você. me espantei e gostei.

prazer em conhecê-la.

denise ravizzoni disse...

Prazer em recebê-la aqui. Venha sempre.

Antologia - ANO I disse...

poh eu teria aceito um convite de bom grado. afinal letras sao letras e tem acima de tudo valores proprios. mas como talvez nao seja a sua concepçao(ainda mais pelo fato de talvez voce ja ter um certo preconceito sobre a minha pessoa) eu ficarei no minimo constrangido se disser que talvez nao seja bem vindo por aqui

denise ravizzoni disse...

para falar a verdade, nem lembro quem é vc.

Antologia - ANO I disse...

bom.menos pior.

kkk.