segunda-feira, 9 de junho de 2008

Capítulo III – Versículo I – Evangelho Feminino Profano


Fêmeas são dramáticas, e, em meio à imensa confusão mental, amadurecem. Finalmente, estão maduras e malucas o suficiente para perder as estribeiras, e precisam retomar o pé no mar onde estão mergulhadas. Desistem de achar um culpado, de tentar encontrar quem afinal colocou cada uma delas ali, naquela ilha cercada de estranhos por todos os lados. Lost. Não se enquadram, não se encaixam. Então, criam, improvisam. É preciso reinventar. O destino feminino foi biologicamente condenado e aprisionado ao mundo cosmético artificial, um arsenal de química importada. Na dúvida, é melhor lavar o rosto com água e sabonete de glicerina. Isso não muda o DNA.
Um dia ela desperta e não reconhece a própria voz. Fala em um idioma que ninguém compreende. As da sua espécie estão ocupadas com filhos e supermercado. Os do gênero oposto (ou complementar) procuram uma fêmea apta para acasalamento, mais jovem, mais firme, menos complicada, menos inteligente. E você lá, olhando aquilo tudo. Não dá pra simplesmente jogar o cérebro fora. Em algum momento do caminho esqueceu o que amou. Lembra vagamente, mas não consegue ver. É nebuloso. Sabe que viveu, que viu, que acreditou, mas é tão distante que esqueceu. Não suporta mais situações intrusas, constrangedoras e receia que uma agressividade mal domada provoque atitudes extremas, das quais sempre se arrepende. Como, por exemplo, dar um bofetão sonoro na atendente de loja que a chama de “meu bem”. Precisa recorrer a apoios externos para agir com segurança, ou tomar um antidepressivo, quem sabe!
É esquizofrenia pura de viver algo irreal, presença de amizades mornas, laços inexistentes. A natureza calada durante séculos desperta de algum lugar e grita: ACORDA OU SE MATA DE UMA VEZ! Ela acorda, e quer se eternizar. A convivência com tudo o que é habitual se torna um exercício árduo. Ela passa a temer a chegada de cada aniversário, não pela passagem do tempo (se acostumou a isso), mas por ter que repetir aquela velha e boa conversa por milênios inteiros.
Então, escava uma fresta de alguma maneira e a vida traz personagens novos. Opera-se o milagre. Não se sabe bem como, esses novos personagens compreendem seus sentimentos fora de ordem, suas idéias desalinhadas, e mesmo assim querem estar com ela. Ela é diferente. Eles sabem e não se importam. Entendem seus temores, ou pelo menos convivem com eles, e sabem que suas agressões surgem só para se defender. Ela sabe que a diferença é um atrativo. Para os novos personagens, uma espécie de deslumbramento. Para ela, uma resistência encantada, emotiva. Sabe que a experiência lhe dá uma aura qualquer (não pode explicar) e que seu raciocínio meio masculino é fascinante. Lembra da mãe, que lhe dizia que quem pensa muito desencapa os neurônios e envelhece neurótica. Não quer dramas. Quer ficar feliz. No meio do mar de merda estão os novos amigos. Entre os novos amigos, aquele que tem o poder de fazê-la sossegar. Compreende, entende, conhece os seus códigos e se comunica com ela. Sua cabeça gira rápido demais. Não existe um motivo real. Está mesmerizada pelo novo amigo, quer sugar como um vampiro genético o benefício da luz. Não tem medo. Apenas acha brilhante que alguém tão jovem possa conhecer tanto quanto ela algumas coisas que acontecem no mundo real, e não no estúdio com cenário de fundo pintado em que vive. Sabe que sua curiosidade vai chegar aos limites do intolerável e que precisa seguir, se apropriar, tomar. Mas, na verdade, quer trocar, sucumbir, quer que também tomem espaço em sua vida. É preciso que se certifique que não há confusão alguma. O sentimento nada tem a ver com isso, mas não pode mais viver sem a sensação da presença nova. É como uma droga. Ele detonou o botão de acesso a um repertório de memória, abre o arquivo de repente e vem com uma força tão grande que pode ser que em algum momento ela erre, ela force, ela perca. O preço é alto, mas o diagnóstico é urgente. E ela deita de lado, se encolhe e recita um antigo poema, rezando para que o susto seja menor do que a descoberta e que tudo fique assim como está.

5 comentários:

Rodrigo Souza disse...

Notei algo... familiar no texto.

Parece muito, mas Cautela e Confiança estão separados apenas por cerca de 600 verbetes. Tenho a impressão que consultamos o mesmo dicionário de bolso quando precisamos.

denise ravizzoni disse...

Familiar tipo lembrou alguma coisa que vc pensa ou familiar tipo plágio??? Se for a segunda opção, favor me avisar para que não pague um mico gigante incomensurável no meio literário... eh, eh

Rodrigo Souza disse...

Déjà vu.

Fabrício Romano disse...

Jamais Vu...

denise ravizzoni disse...

oi yog