quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Exílio


Desde que chegou à cidade, atraíram-lhe as pontes. Não as montanhas verdes dando forma ao vale. Não o céu claro a ponto de doerem-lhe os olhos. Não os trilhos do trem em meio ao tráfego obrigando os carros a manobrar em direção ao passado. O magnetismo estava no murmúrio do rio que rasgava as ruas, escorrendo como hemorragia de um grande corte. O rio e as inevitáveis e necessárias pontes. Debruçada nas balaustradas de concreto, observava as pedras imóveis em seu eterno atrito com águas que nunca paravam.
Em seu exílio voluntário, quis mais de uma vez escalar os pequenos muros e saltar para a veia aberta que jamais cicatrizava. Mas não naquela ponte. Nem na outra, colorida por árvores, povoada de um passaredo loucamente barulhento. Ou ainda aquela com vão maior formado por retângulos inexatos onde eventuais pescadores matinais encaixavam as pernas para a paciente espera (os peixes não viriam nem nesta nem na próxima manhã, pois eram das garcinhas brancas que espreitavam margens ou ilhas formadas por montinhos de seixos).
Embora intensamente quente durante o dia, a cidade amanhecia envolta em bruma fresca. Era a hora em que fazia suas explorações, vestida como os demais praticantes de saudáveis caminhadas. Seu álibi. O que realmente queria era conhecer todas as pontes. Investigava suas origens no arquivo histórico, procurava saber quem era o ilustre personagem que lhes empresava o nome.
Pensar em nomes remeteu-lhe ao seu e ao de outra Virgínia, a Woolf, a inglesa escritora. Ambas obcecadas por margens e rios. Ela perdida em si mesma, invadida pelas águas. A outra perdida em seu universo, construindo frases atormentadas como castelos de galhos que as águas iriam logo levar. Faria ela como a outra? Encheria os bolsos de pedras e se entregaria docilmente ao lodo do fundo?
Foi numa destas caminhadas, depois de atravessar trilhos, aproximar-se do que parecia um clube, que encontrou “A” ponte. Não de concreto. Não para veículos. Madeira, cabos e cordas numa rua vazia e arborizada. Cheio de mato e mofo. Uma ponte antiga, meio bamba, as teias, produto do trabalho de engenhosas aranhas, brilhavam os fios presos nos cabos e refletiam todas as cores do mundo. “A” ponte que ligaria sua trilha ao entendimento de tudo. As águas ali eram escuras, velozes e fundas. Perfeito. Era como um imenso imã puxando cada pequena parte do seu corpo. E ela foi. Os primeiros passos fizeram a ponte sacudir suavemente. Riu do próprio medo. Era irônico. Procurou por uma falha na trama dos cabos e ali sentou, as pernas soltas, suspensas, balançando, como fazem as crianças em um banco alto.
Era como se entendesse naquele momento o motivo de todas as coisas, a razão de tudo, ou a falta de. Faria ela como a outra Virgínia e se deixaria levar pela correnteza sem resistência alguma? Agora, que finalmente encontrara a sua ponte, compreenderia a atração pelas amuradas, a sensação de abismo? Por um momento achou que sim. Jogou as chaves que tinha na mão até ouvir o som do objeto que encontra a superfície de impacto. Medir a altura antes de cair? Não. Não ela. Não essa Virgínia. Atravessou a ponte e seguiu para casa, sem as chaves, mas com todas as portas abertas.

5 comentários:

Beto Canales disse...

Plac, plac, plac...

De pé.

Sheyla Amaral disse...

Gosto quando o texto encaminha o leitor a um caminho e no final, muda o que ele antevê, numa agradável surpresa. Very good, ruiva.

Damião disse...

Exílio. Vários, de variadas formas, óticas e de variados motivos, mas esse... Somente você poderia ter tirado da cartola. Já passei os olhos em tantos "Exílios" e admito: "Teu jeito de dar vida ao texto é simplesmente "D.+"

MELISSA disse...

hum, uma outra forma de ver " a terceira margem do rio"... vc descreve a paisagem de forma que é possivel sentir uma brisa gelada, mas dessa vez, affff, sem cadaveres... Deus é pai!
auauauauauauauauaua
absoluto!

Paulo Mota disse...

Lendo seu texto, lembrei de uma ponte da cidade de minha infância. A passagem era de tábuas e fazia plac!plac!plac! à passagem dos carros. A pé por ali, eu ficava olhando a água negra de sombras por entre as tábuas e...ficava com medo.Mas ia lá e olhava.Gostei do anticlimax.
Paulo Mota