segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Dalila



Ela não era mulher de muitos amores.Teve namorados e amantes. Muitos. Mas não amores. E com eles fazia de tudo. Com cada um de um jeito diferente. Para cada um, uma fantasia. Sempre dizia (e pensava realmente) que os limites de um quarto nunca são firmes o bastante que não se possam ultrapassar e, portanto, transgredir.
E assim agia. Quando estava a fim, não havia o que lhe impusesse barreiras. Nenhum beijo era proibido. Nenhum ato era obsceno. Nenhum gesto, palavra ou pensamento era profano demais para ser realizado com toda a delícia.
Apenas uma coisa a perturbava, constrangia, incomodava o suficiente a ponto de fazê-la desistir de qualquer companhia. Não suportava que tocassem em sua cabeça. Nenhum afago nos cabelos. Nada. Considerava uma mostra de fraqueza receber um simples cafuné. Achava o seu crânio, a sua cabeça, os seus cabelos, a caixa que guardava o cérebro, uma coisa sagrada, o templo que não deveria ser profanado. O resto do seu corpo podia ser do mundo, de quem ela quisesse, de quem o tomasse. A cabeça era só sua. Era território que deveria ser explorado apenas pelos eleitos. Mas ela nem sabia se os eleitos existiam.
Assim seguia a vida. Passavam os dias, as noites e os homens, sem que nenhum conquistasse o direito de declarar-se dono e senhor desse feudo. Até que um dia as coisas ficaram diferentes. Uma chuva forte encharcou a cidade. A natureza parecia querer varrer tudo e todos por força da água e do vento. Pegou-a desprevenida no caminho de casa. Ela procurou abrigo. Entrou numa loja, toda molhada, a maquiagem borrada, o cabelo desfeito. Ficou com vergonha. Era uma loja elegante, pretensiosa mesmo, numa daquelas ruas chamadas de alameda. E aquele homem veio em sua direção, perguntou se podia fazer algo por ela e, solícito, ajudou-a a tirar o casaco encharcado. Trouxe uma toalha macia e, olhando muito dentro e muito fundo em seus olhos, começou a secar seus cabelos muito lentamente. Então, ela deitou a cabeça naquele ombro desconhecido e o universo deles mudou. A chuva parou de repente, como que oferecendo uma prenda a um deus desconhecido e mítico, e a Terra recomeçou a girar.

8 comentários:

Daniel Denkeman disse...

as vezes e bom andar sem guarda-chuvas. Andar desprevinido as vezes é bom!

Sheyla Amaral disse...

O nome dele era Sansão? Ótimo texto.

MELISSA disse...

"...e o espirito de deus voltou a reinar sob a face das aguas...
aha... denisinha só vc mesmo!!!
tava na hora de um pouco de romantismo né, chega de cadáversssss....rsrsrs

Beto Canales disse...

plac, plac, plac

Fabrício Romano disse...

Já tinha lido esse conto, gosto dele. Esse também vai entrar pro novo livro?
beijão, dear.
saudades das nossas conversas.

Eduardo Martins disse...

Quebra de paradigmas! Temos tantos... velados ou não.
Bom conto.

Lorena disse...

Oi, Denise.

Primeiramente, quero agradecer a visita ao meu blog e também as palavras sobre meu texto no 3am. Muito legal saber que as pessoas leram e gostaram, eu não esperava toda essa resposta, mas fiquei muito feliz por isso!

E vim retribuir a visita e não me surpreendi ao encontrar aqui uma literatura bastante verdadeira, eu esperava por isso. Acho que esse universo de blogs têm me trazido ótimas surpresas, acabo encontrando pessoas que escrevem com coração, e de quem me admiro muito! Vou levar seu link lá pro meu espaço porque com certeza vou voltar. =)

um abraço.

Carlos Patrício disse...

Que bom que voltei de férias... quer dizer, fim de férias é um saco, mas voltar a ler a Denise, puxa, faz valer a pena.

Especialmente quando ela escreve assim, desse jeitinho...