quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Astronomia


Olha e olha o céu. Bonito, o céu naquela noite. Apalpa os bolsos procurando alguma coisa. O que é mesmo? Não sabe bem, mesmo assim procura e procura. E olha para cima, com ar ansioso.
Noite clara, como não se via mais. No bolso da calça, talvez... talvez encontre o que procura. Mas não neste bolso. Ela olha o céu novamente. A última vez que o fenômeno aconteceu foi em Outubro de 1961, no dia 7. Acontecerá novamente em 2052, no dia 18 de Novembro. E acontece hoje.
Enquanto espera, pensa no carro estacionado, nas contas que precisa pagar e na limpeza que fez em casa. Antes de sair deixou tudo impecável. Adora voltar da rua e sentir um cheiro de ar fresco e limpo quando abre a porta. No bolso de trás, talvez? Procura com cuidado, enfiando bem os dedos na dobra da costura interna. Nada. Não está ali.
Alinhamento de planetas. Nome interessante. Durante o fenômeno, a Lua fica a 402 mil quilômetros da Terra, Vênus a 150 milhões e Júpiter a 870 milhões. Planetas em linha, mas a uma distância segura. Não é um encontro. É uma espécie de comboio.
Ana lembra o que ele lhe disse horas antes enquanto acariciava seu pescoço:
- Vai ser bonito. O céu. Vamos ver isso juntos, alinhados como os planetas.
Ela parada ali, o par de binóculos pendurado no pescoço, esperando e esperando. Pensava e pensava nas palavras que saíam da boca morena, macia, sorriso aberto, quase sincero. A boca de promessas vãs, a boca que dizia coisas que jamais aconteceriam. Não entendia a necessidade da ‘não-verdade’ dita assim, de modo tão mesquinho. Ele sabia que se dissesse a verdade, quer fosse boa, quer não, Ana entenderia. Sempre. Lidava bem com verdades, com qualquer verdade. Não aceitava bem as mentiras, principalmente de quem dizia lhe amar como a própria vida. E promessas que não iriam se realizar, essas ela simplesmente abominava.
No bolso da jaqueta. Será??? Merda! Em que porcaria de bolso enfiei... Enfiei o quê? Procura mais um pouco, a jaqueta tem um botão apertado na casa que fecha o bolso, demora a abrir, os dedos finos já meio frios pelo ar da noite. O uso de binóculos permite visibilidade total do movimento astronômico. Um telescópio permite que se veja somente um dos astros de cada vez. O tapete da sala, em frente à porta de entrada é novo. Ana nunca gostou de tapetes puídos, gastos, sujos. Este jamais ficaria manchado. Ela cuida disso pessoalmente.
O céu sem nuvens promete um bom espetáculo. Queria que tudo fosse claro assim, como o céu. Não havia necessidade de fatos nebulosos, nuvens escondendo atos. Sua cabeça funcionando sem parar. Pensa que podia conviver facilmente com a situação mais torpe, mais suja, mais indigna; que aceitaria o homem mais canalha, a tarefa mais abjeta, desde que tudo fosse a mais pura realidade, sem enganação, sem truque. Um senso de moral estranho, um código particular, mas serve bem. Funciona. E onde meti a porcaria da chave??? Chave!!! É isso que busca tão avidamente. O bolso interno da jaqueta, talvez. Junto com o talão de cheques. Procura e procura e procura. Esquadrinha os cantos do bolso com muito cuidado. A nódoa no tapete deu trabalho. Quase duas horas até remover completamente. Os pingos pequenos que ficaram em volta foram os mais difíceis, embora muito pequenos. E tomou um cuidado enorme na escolha do produto certo. Tapetes rotos ou manchados a incomodam desde sempre.
Os planetas Vênus, Júpiter e Lua entram em conjunção e ela assiste. Bonito. Um alinhamento de três planetas, assim, com o céu tão claro! Um triângulo amoroso no céu. Na vida, nem sempre é assim. Abriu o livro em que procurava uma citação naquela manhã, estava escrevendo um artigo e precisava lembrar exatamente as palavras. O autor era bom, mas qual era a palavra mesmo? Pegou o livro na estante. Era dele, havia esquecido em sua casa. Esquecimento providencial. Abriu e viu. Estava lá. A foto. Uma mulher. Estranha mulher. Não era bonita. Pescoço muito curto, cabeça um pouco grande. Cabelos pintados, obviamente mais escuros, a boca seria bonita se não fosse quase inchada. O queixo duplo, evidenciando o peso fora de controle com um efeito bastante antiestético. A roupa de gosto duvidoso brigando com a cor de um batom fora de moda. E a dedicatória.
“Amor, és minha vida. Ti doluuuu.... Xero.” O nome da mulher da foto e o dele enlaçados em um coração desenhado em vermelho. A data era da véspera do alinhamento dos planetas.
Vulgar. Foi a palavra que saltou à sua frente quando analisou a imagem. Personificadas ali todas as coisas que ele dizia odiar. O exagero nas roupas coloridas, o tratamento infantil dado a um adulto, a demonstração de afeto de modo adolescente, o jeito de escrever, as coisas que ele dizia detestar com fúria. Mas guardara a foto no livro favorito. O bolso da camisa, claro! Encontrou, finalmente. A pequena chave delicada, dourada, com a pequena pedra verde engastada. Abria a caixinha que guardou no porta-luvas do carro, logo depois de terminar a limpeza do tapete. Respira com mais calma e observa o céu. Pensa nele. Quando iam saindo, ele disse que não poderia ver com ela o fenômeno no céu. Tinha um compromisso. Sabe que prometeu, lamenta perder, mas depois vê uma foto na internet. Ela assiste ao vivo. Lá está a conjunção no céu claro, o ar frio. Os planetas alinhados como só se veria novamente em 2052. Pensa que até lá o tapete da entrada já estará arcaico e ninguém se importará com possíveis manchas antigas de sangue. Talvez ela também já esteja crestada como um velho papel. E, sem dúvida estará antiga a preciosa caixinha onde guardou com cuidado a língua do homem que ama, trancada com a pequena e delicada chave. De dentro da caixa, onde repousa em gaze branca, imaculada, a língua não mais fará promessa alguma que não pretenda cumprir.

7 comentários:

Miozete disse...

Eu também não entendo porque a verdade é tão difícil. Verdade boa, verdade má, não importa. Just tell me the truth.

Denise disse...

Exatamente. Mesmo que doa, dói menos que uma mentira. Sempre.

Beto Canales disse...

plac, plac, plac

Luiz Gonzaga disse...

A língua como preço da mentira.

MELISSA disse...

sua diaba, eu apostaria minha língua como aqui tinha um cadáver!
vc nos mostra friamente o que se passa em milesimos de nanosegundos no cérebro dos teus assassinos psicopatas infantis, carentes e sei la em que parte do mundo vc os encontrou ou ainda eles é que te encontraram ... ha ha ha ...
bjs.
mel

MELISSA disse...

ti doluuuu....

Denise disse...

kkk... eu não disse que ele está vivo, nem disse que está morto. A personagem é quem sabe.