quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Fada dos Dentes


Eles estão lá enfileirados. Todos um ao lado do outro. Na luz da web, aquela configuração ameaça, chega a causar incômodo. Não que provoquem náusea ou coisa parecida. Bem pelo contrário. São de um brilho estranho, um formato único, que seduz e amedronta, tão estranhos que me fazem perguntar por que caralho, afinal de contas, não são todos assim.

E eu, olhando as formas brilhando na lente, esqueço que tudo tem uma moldura. Em volta daqueles dentes há toda uma pessoa, uma boca que beija e fala comigo, uma cabeça que pensa, cabelos, mãos (de que gosto especialmente), um cérebro, e todos os acessórios que costumam vir no pacote dos seres humanos completos.

Vira uma espécie de obsessão instantânea. Quero aquela pessoa. Quero aquele sorriso. Quero a língua em mim, e a boca que a contém. Quero a imagem dos dentes, um frame perfeito congelado no tempo. Alguma coisa que eu possa guardar para sempre. Nunca vi nada tão lindo!

E não falo dessa beleza de revista, de expor as carnes como num açougue para ver qual peça de picanha ou filé nos aguça o paladar. Falo daquela beleza subjetiva, de uma espécie de revelação que acontece, mas que a gente não consegue explicar, dimensionar, sei lá.

Fico imaginando um jeito de capturar esses dentes. Arrancar um a um como fez o louco do conto de Poe com a pobre Berenice? Nem pensar! Trágico demais. Pedir para tirar um molde e confeccionar um modelo em gesso, um souvenir? Frio demais. Não me deixaria feliz.

Então, para ter os dentes, só há uma maneira viável. É preciso que todo o resto acompanhe o conjunto de pedaços brancos que me fascinam. Isso implica ter a boca, os olhos, os cabelos, o pau, os pés, e eu não quero. Mas agora, aqui, em total quietude na noite escura, só quero que crave os dentes com calma, fundo, em meu pescoço. Só quero os dentes, os dentes, os dentes.

7 comentários:

Carlos Patrício disse...

Venha me beijar, minha doce vampira, na luz do luar.

Venha sugar o calor de dentro do meu sangue vermelho ... tão vivo e tão eterno veneno, que mata sua sede e me bebe quente como um licor, brindando à Morte
e fazendo amor ...

Fada, safada, farra, foda dos dentes. Por que caralho, afinal de contas, todo mundo não escreve tão bem assim?

Saúde!

MELISSA disse...

“a historia que vou contar é, por essência, uma historia de horror...” Berenice - E.P
sim, sim minha cara nao perderia a oportunidade ...
vc é d+!

Rodrigo Souza disse...

Hmmm... prazer unilateral, huh?

Ana disse...

Existe no meu dente siso,
um duende lépido, fixo
que brinca no arco-irís
do céu da boca.
Ninha

Sheyla Amaral disse...

É quando os dentes se apresentam primeiro. Ou depois, e tudo é sorriso.

Fabrício Romano disse...

:)

Luiz disse...

Como posso dizer... Fascinante!