quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Coma


Estado de torpor emocional, de embotamento profundo, de ilusão de movimento. Como sonhar com o balançar dos barcos, mas jamais ter ganhado as ondas. É assim que vive a maioria dos não-sei-quantos-milhões de humanos do planeta. Alegrias médias, gozo transitório, intelecto satisfatório, felicidade homeopática. Mais ou menos como deixar de ir a uma ótima festa por medo da ressaca.
Passam a vida cultuando gênios que não compreendem. As grandes sinfonias, os grandes filósofos, os melhores livros, a efervescência dos mártires. Os comatosos afetivos querem sorver dessa taça com uma sede ancestral, mas não alcançam, não chegam jamais perto o suficiente para o primeiro gole.
Graça suprema é sair deste sono de vida pantanosa pela força de um grande choque, uma grande descarga elétrica que não nos mata. Nos desperta, nos acorda e nos liga a todas as verdades. Depois do choque, você passa a ouvir a nota de violino escondida na sinfonia, percebe a sutil escolha das palavras do poeta, revela a paleta insana do gênio das tintas.
Ah, mas tudo isso não é fácil. É preciso primeiro conhecer o coma, ter vivido nele, com ele, por ele, e ter, por um longo período, acreditado ser isso a vida. Se, e somente se, você tiver a sorte de encontrar quem te desperte, quem detone a bomba que te acorda, é preciso que seja esperto para reconhecer os sinais do agente catalisador. Depois, ainda, terá que ter coragem para resistir aos outros comatosos, aos que querem que você continue em seu estado de afeto vegetativo. Coragem para repudiar à semi-vida.
Só então o coma acaba, as cores aparecem, e o mundo nunca mais será o mesmo.

4 comentários:

lanznaster disse...

Que venham as ressacas...belo.

Paulo Mota disse...

Ou seja: para virar pipoca, o milho precisa ser queimado.

Rodrigo Souza disse...

Ou:
Os melhores aços são forjados no calor e sob muita porrada.

Ou:
Um diamante é carbono que se saiu bem sob pressão.

Ou:
Escolha melhor suas amizades enquanto pode. Parentes vêm em pacotes e não há departamento de trocas.

Sheyla Amaral disse...

Trovões, raios e relâmpagos, tive um sonho assim, essa noite. Acordar do torpor também dá medo, é como sair pra rua numa noite de tempestade ou cair no precipício como aquela vaca louca, rss Ravizzoni, dá pra sentir a eletricidade estática do texto daqui, ;)