Era assim, um universo seco. Os caminhos feitos de pequenas linhas se encontravam com outros caminhos, se bifurcavam e se uniam, como um mapa desenhado em couro velho, uma coisa meio passada. Lembrava um pouco a textura dos documentos antigos, a cor amarelada, as ranhuras minúsculas, os pontinhos de mofo parecendo poros abertos, muito abertos.
Através da lente de aumento observo o tal solo seco. Nenhuma vegetação. A devastação não é só provocada pela falta da benção da hidratação – santa água que tudo lava e tudo salva. É aquele tipo de devastação que resulta da passagem do tempo – o oráculo implacável - que vem com o castigo do sol e do vento, pelo açoite da areia, e, quase certo, pelo acréscimo generoso de uma boa dose de decepções, sofrimentos e agressões cotidianas.
Embora seco, crestado, gretado, meio sem vida, o solo conta uma história. Ignorar a sensação de desolamento é impossível. Dá assim uma tristeza meio distante, uma saudade que não sei bem de onde, nem do quê. Nostalgia. Banzo. Como se, além de seco fosse deserto, quente, rascante e...longe. É como olhar para mim mesma, lá atrás.
Sou agora a grande exploradora. Procuro tesouros enterrados no solo seco. Segredos de tumbas, grandes revelações, um corpo mumificado, um livro amaldiçoado, um poço dos desejos oculto na paisagem, jóias talvez.
E embora seja divertida a brincadeira de explorar, caio na real. O tempo de agora me chama. Preciso me apressar. Acendo aquela maldita lâmpada fluorescente que amplia as imperfeições e concluo que pele seca é uma merda. É duro ser mulher numa segunda-feira de manhã.
Publiquei isso em outro blog, tempos atrás, em que escrevia sob pseudônimo. Hoje, relendo, me pareceu tão... 'de agora' que resolvi trazer para cá. ... Branca quase azul, rouba calças das lavanderias automáticas para vender nos brechós, onde também compra suas roupas (de preferência vestidos de festa). Vive de refeições que o serviço social entrega para pessoas que já morreram, mora num hotel pulguento. Tem lábios grossos (“lábios de sofá italiano de couro preto”) sempre pintados de vermelho, o cabelo é artisticamente desalinhado, usa um risco de lápis muito preto nos olhos, quer morrer mas não consegue, come o Tyler Durden (Brad Pitt), tem um caso com o Narrador (Ed Norton) e diz coisas assim:
- Os funerais não são nada perto disto. São cerimônias abstratas. Só aqui tem-se a verdadeira sensação da morte. - Não tenha medo. Ele não vai te comer (para T. Durden, referindo-se ao vibrador de plástico pink sobre a cômoda). - A camisinha é o sapatinho de cristal da nossa geração. Você calça quando conhece uma pessoa, dança a noite toda e depois joga fora. A camisinha, não a pessoa. Definitivamente, quero ser Marla Singer.
Por quantos dias é possível levar a vida no piloto-automático? Quanta dor alguém é capaz de suportar? Por que caralhos insistem em dizer que você é especial se não há ninguém para dividir a cama? Por quantos meses você tentaria iludir a solidão só com o som da TV ligada constantemente servindo de trilha sonora dos dias e noites inúteis? Para onde se vai quando não há para onde ir? O que acontece com seus livros e CDs quando você deixa de existir? Qual é a idade da minha alma? Eu não sei voar.
sábado, 15 de novembro de 2008
Numa certa viagem, descobri que há um enorme deserto no Brasil. Uma parte deste deserto está agora dentro de mim.
A covardia produz diversos tipos de indivíduos. Todos seqüelados, claro, mas não necessariamente da mesma espécie. Há o covarde evidente, aquele a quem você identifica durante a primeira troca de frases. Este, ao menos é, de certa forma, honesto. Há o covarde heróico, que faz de tudo para ocultar sua deficiência de caráter em prol de outras prioridades, como a vida social, por exemplo. Há o covarde festivo, simpático, até. Diverte-se com sua condição e faz disso motivo para riso, conseguindo, assim, ser aceito pelo grupo de modo geral. E há o pior de todos: o covarde corajoso. Este, sim, desprezível. É pernicioso, pois na ânsia de parecer audaz, ilude, promete, mente. Não tenho certeza que não acredite, ele mesmo, em suas ‘qualidades’ propaladas, e as faz tão reais que você é capaz de abraçar suas causas. Este tipo fala bem, é convincente, tão sólido que ao ouvi-lo você é capaz de uma espécie de conversão instantânea. O covarde corajoso se torna sua religião, seu motivo de transe. Não há nada que ele peça que você não faça, não há nada que ele diga que você não abone, não há nada que você não esteja disposto a fazer por ele. Você é capaz até mesmo de sentir-se um ser miserável, assumindo culpas e sofrendo por elas, só para poupá-lo de aborrecimentos. Até que chega o momento de uma ação verdadeira. O momento em que é preciso polir a armadura, em que um ato de coragem se faz necessário. Bem, aí não conte com ele. Você olhará para o lado e só encontrará as convicções que acompanhavam sua devoção, já um pouco murchas, sem cor. Como um avestruz assombrado pelo medo das próprias mentiras, ele esconderá a cabeça num grande e nebuloso buraco. Que por lá permaneça.
Volta e meia, me aventuro. Quase sempre me dou mal, tomo tombo, me arrebento. Mas sempre tento, e sempre mais, e sempre muito. Por isso escrevo. Eu, contista, me aventurei pelo mundo dos textos maiores. Saiu um romance. Atende pelo nome de NÓS SEM VOCÊ. Publico aqui o primeiro capítulo apresentando o personagem ELA, prova da minha falta total de senso de preservação. Como diria uma amiga, "pular no abismo feito uma vaca kamikaze"... Segue o texto, logo abaixo.
...
SOBRE ELA - I
Não sei como defini-la, descrevê-la. Nem preciso. Minha função aqui é outra. Sou o narrador, o escriba. Só relato fatos. Não sou a voz de ninguém. Apenas testemunhei como quem assiste a um filme banal numa madrugada insone. Mesmo assim, acho que vale contar. É uma espécie de histórico, de diário. Aconteceu com ela. Poderia ter acontecido com você.
Ela vive como todos, não vou situar nem tempo, nem espaço. Pense o que quiser. Imagine. É um lugar qualquer do planeta, um lugar em que qualquer um de nós poderia estar. Simples assim. Leva a vida, faz o que faz, o que gosta, o que precisa. Trabalho, família, amigos, essas coisas. Tem vontades secretas que sublimou, vontades novas que brotam sem aviso, realiza pequenos desejos, esquece de outros tantos. Ouve música aos quilos, lê às toneladas, vê mais filmes do que a população total de algumas cidades pequenas, mas não gosta dessa coisa esnobe de falar só sobre cultura. Odeia gente assim. O pessoal “papo cabeça” em tempo integral. “Tem hora pra tudo” - costuma pensar - embora não tolere manifestações explícitas de burrice crônica. Adora falar bobagens, rir das bobagens que ouve. É dona de um humor rascante, beirando o sarcasmo. Não é qualquer um que percebe onde termina a piada, onde começa o insulto. Limite sutil que ela cruza sempre que pode, ou quando não percebe. Por isso faz amigos com a mesma facilidade com que coleciona inimigos. Chamarei de antipatias, que soa menos dramático (mesmo que ela afirme que seres do gênero feminino possuam grande vocação para o drama, assim como as drag queens).
Não acredita em morte natural. Segundo ela, pessoas vão se envenenando aos poucos. Não com remédios, poluição, péssimos hábitos, comida industrial, doenças, metais pesados, agrotóxicos, drogas, álcool e cigarros, mas delas mesmas. Vão envenenando umas às outras até o limite do suportável e, então, simplesmente morrem. Logo, ninguém, em tempo nenhum, morreu, morre ou morrerá de forma natural. Todos assassinam uns aos outros. É o que ela acha.
Gostaria de encontrar alguma coisa. Não sabe o quê. Talvez um prato fundo, bem cheio de uma substância qualquer que mate todas as suas fomes constantes. Que fomes são? Pergunte a ela, se um dia puder. Eu não sei. Eventualmente faz como um personagem de Virginia Woolf: mantém os olhos abertos para preencher cérebro ao limite máximo. O mais próximo que consegue chegar da saciedade, da sensação de plenitude. Fugaz! Dura apenas alguns segundos.
Depois de muito pensar sobre o que tinha feito da vida, resolveu mudar o rumo da estrada. Pega um desvio. Quer literatura. Quer multiplicar, trocar, falar sobre autores, citações, biografias. Precisa de interlocutores, de desafios, de personagens. Quer que a questionem, que a instiguem, que a ameaça chegue perto, uma lâmina rápida passando à distância de um fio de cabelo. De que vale conversar com gente que só concorda? Duvida um pouco que a humanidade, no estado em que se encontra, possa fornecer esse tipo de indivíduo. Mesmo assim nutre esperanças. Quem sabe?
É tarefa complexa entender suas preferências literárias ou musicais. Trata-se de um ser mutante, moldável, mas não propriamente adaptável. Precisa ser convencida. Prefere observar os ambientes e absorver por osmose somente o que interessa. Caso contrário, a guinada precisa ser radical, o impacto grande, para sacudi-la, arrancá-la do marasmo. Depois da queda, o coice! Se não for assim, desaba no buraco escuro e cinza do tédio, e ali se acomoda, permanece.
Não é resistente à tecnologia. Mas não morre de paixão por computadores, mensagens eletrônicas e parafernálias em geral, embora não viva sem algo que produza som em cada ambiente da casa, um celular (mais para mensagens do que para conversas), e um bom forno de microondas. Ama a música e, portanto, ama CDs e outras mídias. Telas, teclas e botões são mortos para ela. Chatice necessária. Por força do ofício usa computadores diariamente, por muitas e muitas horas. Possui o ímpeto dos descobridores, o que a faz uma mulher curiosa, aprendiz eterna. Por isso conectou-se ao mundo pelos milhões de artifícios internéticos, links, blogs, espaços virtuais, e-mails, outlooks. Essa porcaria toda. Usa tudo como os índios americanos fariam com sinais de fumaça, ou a resistência francesa com os pombos-correio.
É uma necessidade vital para esta mulher estar ligada aos amigos. Por conta disso entrou, meio contra a vontade, em um desses nichos, tipo clube virtual. A curiosidade matou o gato! Um impulso a leva a fuçar em tudo, vasculhar até chegar o mais próximo possível de um conceito de compreensão, apropriação. Acabou encontrando um lugar para falar sobre música, cinema e literatura.
Odeio. Assim, simples, no presente do indicativo. Mas não odeio de um jeito nobre, como aquilo que chamamos de ódio construtivo, que geralmente acompanha uma bofetada da vida, do sofrimento, e nos faz reagir. O ódio com saldo positivo, se é que pode haver algo assim. O meu ódio acontece em estado bruto, duro e frio como uma rocha, cristalizado, empedernido. Ódio cego. Camadas e camadas acumuladas, como que guardando fósseis no ponto mais profundo e mais escondido da terra que há em mim. Não tenho a menor pretensão de pertencer ao grupo dos que odeiam em segredo, civilizadamente, ou dos usam o ódio como um foguete propulsor. Não, nada disso. Sou humana, vil, mesquinha e sofro. Sofro muito com as dores que me cabem e com as que me imponho. Xingo, grito, acho injusto e choro. E, é claro, odeio com todas as forças, como deve ser, sem objetivo, sem buscar a cura.
É claro que minha vida não se resume a isso, mas, no momento, mudar o foco da conversa para coisas agradáveis seria mais ou menos como depositar flores mortas sobre a carne viva. Completamente sem propósito. Não há motivo para misturar as coisas. Tudo em seu lugar e a seu tempo.
E sinto ódio quando acordo e me dou conta de que sei desde sempre que o fim do caminho é a morte. Que já se passou a metade da minha vida e que nunca serei a mulher que visita as pirâmides, que se aventura, que domina cinco idiomas, que conhece a poesia e a prosa do mundo. Jamais dançarei bem como gostaria. Nunca darei a volta ao mundo, ou mesmo farei um cruzeiro num grande veleiro branco. Nunca terei amantes misteriosos, não escreverei livros de sucesso, não aprenderei a tocar piano, não criarei cavalos, não morarei numa grande casa com sombra de árvores fartas e convidativas no jardim. Não passarei tardes olhando para o mar da Grécia. Não terei os músculos da Madonna. Não pintarei telas em azul e ocre. Não conhecerei a glória de me apaixonar mais dez vezes, não nadarei com golfinhos, não serei a luz da vida e a razão dos dias de mais ninguém, não arrebatarei de nenhuma outra o homem que tanto amo. Minha existência é comum e será assim até o final. É o meu papel, o que me coube na comédia.
Em dias assim é inútil querer encontrar o lado bom de qualquer coisa. Certamente estará chovendo, e o melhor é espiar pela janela com um olhar vazio, tomar um chá quente e voltar para a cama. Em dias de ódio cego, bruto e visceral, é de bom tom poupar o mundo da nossa constrangedora presença.
Algumas coisas me arrependo de ter dito. Outras, me arrependo de não ter feito. Acho que a vida é assim. Estou aqui, no táxi amarelo, e entre um e outro pensamento que foge pela janela junto com a paisagem – passa, passa, tudo passa - abro a bolsa de grife com um monte de coisas dentro. Encontro o que preciso para retocar o batom com aquela postura de quem tem controle. Aprendi faz tempo a aparentar controle. Não significa que tenho. Não mesmo. Lembro-me do filme que vi. Acho que era Tomates Verdes Fritos. A personagem, gorda, triste e patética, diz que é tarde demais para ser jovem e cedo demais para ser velha. Acho que era mais ou menos assim. Pode não ser. Mas entendo.
Enquanto o carro segue, sonho em ser assim, desconhecida, inconstante, não precisar parecer, não precisar não-ser. Inventar a própria personagem todos os dias é uma carga pesada. Até para mim, que carrego milhões de pequenas coisas nessa bolsa.
Na avenida grande, enquanto o táxi segue, vou repassando as minhas diversas mulheres, uma espécie de catálogo esquizofrênico de “eus” interiores, como quem deixa correr um fio da meia de nylon. Em minha sala de não-estar estão os objetos que tanto prezo. Arte, dizem os amigos. Gosto de arte sim. Sou moderna. E gostar de arte é culto. Quase necessário. O que diriam, afinal, os que me conhecem e os que me criticam? Mas uma daquelas que me habita gosta também de gravuras baratas com as figuras de Jesus e Maria com o coração em sangue, ou daquela menininha "kitsch" com cachos dourados segurando flores de plástico. Essa mulher estranha nutre predileção por bonequinhas de porcelana e jarras em formato de abacaxi, cabelos amarelos de descolorante, unhas e lábios bem vermelhos. O gosto é dela e não está em discussão. Susto. O táxi faz uma curva que acorda. Acorda? Mas não era sonho. Nem delírio.
A buzina me chama para o mundo do aqui e agora. Indo, indo, indo. E eu vou. Como no ano passado, como em tantos outros. A mesa estará posta, as crianças mais crescidas. Como você está bem! Não mudou nada! Mudamos. Todos mudamos. Mais amargos, mais felizes, mais velhos, mais prósperos, menos pacientes. Haverá a discussão por quem corta o peru, as piadinhas de sempre. Os risos, também de sempre. As animosidades corriqueiras. E eu indo. Me deixando levar como as algas mortas nas ondas. Se a imagem invocasse uma ostra, pelo menos poderia me grudar a algum rochedo ocasional. Não seguir em frente. Parar. Mas alga não adere a nada. Acompanha o movimento. Só vai.
A avenida se bifurca. O táxi, agora, contorna o parque em direção ao túnel. Minha cabeça também está assim. Eu me bifurco e entro no túnel. A luz aparece longe ainda. Quando o carro vence o túnel, a frase sai de uma boca que não parece articular nada:
Pára um pouco que eu vou descer.
Ar. Muito ar. Respiro muito. Fundo. Embora seja dezembro tropical, o ar é fresco. Desenha um caminho das narinas aos pulmões. Pensamentos mais claros. Observo a paisagem. Rimbaud escreveu que a eternidade é o mar encontrando o céu. Algo assim. Eu concordo. Com a alma encharcada de uma esperança pífia entro de novo no táxi.
- Segue.
A ordem é seca. A voz tem um pouco de angústia. Um fundo molhado. Meus olhos também. O motorista não sorri. Eu não sorrio. Sigo.
Táxi não é lugar para crise existencial em véspera de festa anual do clã familiar. Que coisa mais sem glamour. Não tenho tempo agora para filme que passa na cabeça expondo as claustrofobias que moram em mim e nas minhas muitas personagens. As misérias e glórias das muitas que me habitam. A mim e a tantas outras. Brigam por espaço, se acotovelando, querendo emergir. Nunca chegam a um acordo. Nunca sou plena. Sou muitas. É sina. Vou continuar sendo. O amigo astrólogo, conhecedor da alma humana, jornalista e escritor sazonal diz que a culpa é do mapa astral. Sabe como é: capricórnio com ascendente em câncer. Antagonistas. Um contrapõe o outro. Um completa o outro.
Seja lá como for, dou uma ajeitada nos cabelos curtos. Confiro o rosto no espelho. Nenhum sinal de dúvida. Nada me desfigura. Impassível. Egípcia. Pago a corrida de táxi. O motorista rumina um agradecimento. Eu desembarco. Aliso a roupa. Respiro mais uma vez a brisa fresca e me dirijo calma, segura, para a entrada do prédio e para a festa que me espera. Ano que vem não. Mas agora vou. Sorrio e vou.
Ele me sabe. Me conhece. Me decifra. Sabe que pode andar entre tudo o que há de mais incerto em mim. Sabe dos meus dias de espera, das minhas noites insones. Sabe que meu amor é feito de fogo e incenso, que arde, mas não destrói. Sabe que tenho inúmeras portas trancadas, mas tem a chave para abrir a cada uma delas. Me conhece porque vê além dos meus olhos; vê com meus olhos. Percebe que cada gesto significa um outro gesto, guarda ou revela, mostra ou insinua. Conhece o real sentido dos meus sentidos. Conhece as pequenas e grandes reações que cada toque seu, cada palavra sua podem desencadear. Passeia soberano pelos abismos e pelas planícies de mim. Abre minhas janelas para que entre a luz. Me decifra porque me lê com o cuidado de um arqueólogo que dedica a vida a compreender os sinais que encontra na cidade perdida que sempre procurou. Me lê como a um livro revelador, buscando suas respostas em cada pequeno traço deixado no papel em que me imprimo. Porque possui todos os códigos que me acessam. Me sabe porque sabe a si mesmo. Porque sou como ele. Porque sou ele. Porque somos nós.
Eles estão lá enfileirados. Todos um ao lado do outro. Na luz da web, aquela configuração ameaça, chega a causar incômodo. Não que provoquem náusea ou coisa parecida. Bem pelo contrário. São de um brilho estranho, um formato único, que seduz e amedronta, tão estranhos que me fazem perguntar por que caralho, afinal de contas, não são todos assim.
E eu, olhando as formas brilhando na lente, esqueço que tudo tem uma moldura. Em volta daqueles dentes há toda uma pessoa, uma boca que beija e fala comigo, uma cabeça que pensa, cabelos, mãos (de que gosto especialmente), um cérebro,e todos os acessórios que costumam vir no pacote dos seres humanos completos.
Vira uma espécie de obsessão instantânea. Quero aquela pessoa. Quero aquele sorriso. Quero a língua em mim, e a boca que a contém. Quero a imagem dos dentes, um frame perfeito congelado no tempo. Alguma coisa que eu possa guardar para sempre. Nunca vi nada tão lindo!
E não falo dessa beleza de revista, de expor as carnes como num açougue para ver qual peça de picanha ou filé nos aguça o paladar. Falo daquela beleza subjetiva, de uma espécie de revelação que acontece, mas que a gente não consegue explicar, dimensionar, sei lá.
Fico imaginando um jeito de capturar esses dentes. Arrancar um a um como fez o louco do conto de Poe com a pobre Berenice? Nem pensar! Trágico demais. Pedir para tirar um molde e confeccionar um modelo em gesso, um souvenir? Frio demais. Não me deixaria feliz.
Então, para ter os dentes, só há uma maneira viável. É preciso que todo o resto acompanhe o conjunto de pedaços brancos que me fascinam. Isso implica ter a boca, os olhos, os cabelos, o pau, os pés, e eu não quero. Mas agora, aqui, em total quietude na noite escura, só quero que crave os dentes com calma, fundo, em meu pescoço. Só quero os dentes, os dentes, os dentes.